Fundamentação Teórica do Tambor de Crioula
O Tambor de Crioula, ou simplesmente
Punga, é uma dança típica do Maranhão, geralmente de caráter profano, mas por
vezes com conotações religiosas, podendo ser considerada uma brincadeira.
Realizada em qualquer época do ano, a Punga é mantida pelos descendentes de
escravos africanos. É também manifestação cultural afro-descendente de
pagamento de promessas a São Benedito e outras entidades igualmente comuns no
estado. Associado à manifestações culturais e tradição, o Tambor de Crioula em
São Luis remete à noção de cultura para Santos (1994, p. 45), que afirmará a cultura
enquanto construção histórica, ou seja, permeada pela tradição:
“Cultura é uma construção histórica,
seja como concepção, seja como dimensão do processo social. Ou seja, a cultura
não é algo natural, não é uma decorrência de leis físicas ou biológicas. Ao
contrário, a cultura é um produto coletivo da vida humana. Isso se aplica não
apenas à percepção da cultura, mas também à sua relevância, à importância que
passa a ter.” (SANTOS, 1994)
Grupos de tambor costumeiramente se
apresentam no período do Carnaval e em outras datas festivas, como o São João
ou em apresentações turísticas. Segundo os próprios brincantes, as
apresentações em palcos e arraiais pela capital é cada vez mais estimulada pelo
governo. Esse estímulo se mostra na forma de auxilio financeiro para os grupos
filiados à Associação e cadastrados junto às Secretarias de Cultura do Estado
(SECMA) e do Município (FUNC-MA). O Centro de Cultura Popular Domingos Vieira
Filho mantém uma lista com vários grupos cadastrados e que se apresentam
regularmente. Ferretti[1] (1995) fala a respeito do
Tambor:
“Mulheres cantam e dançam dando entre si
ou com pessoas da assistência. A umbigada ou punga é uma espécie de convite a
dança, os homens tocam tambores e entoam cânticos conhecidos ou de improviso.”
(FERRETTI, 1995)
Ao pensarmos no caráter geralmente
festivo dessa dança, logo percebemos a primeira diferença entre o Tambor de
Crioula e o Tambor de Mina, Mundicarmo Ferretti trabalha com o conceito de Mina
de modo a tornar mais clara essa distinção, a saber:
“O Tambor de Mina ou simplesmente a “Mina”, é uma
manifestação de matriz africana surgiu no Maranhão em meados do século XIX. Seu
marco inicial foi a fundação pelas mãos de africanas da Casa das Minas (Jejê),
consagrada ao vodun “Zomadonu” [...] e da Casa de Nagô consagrada ao orixá
“Xangô”, ambas ainda em funcionamento.” (FERRETTI, M., 1985)
Assim podemos tomar por base o
caráter religioso versus profano de ambos os Tambores para distingui-los.
Enquanto a Mina é uma manifestação religiosa de caráter ritualístico em que a
presença do transe é marcante e há sempre um ritual a ser seguido para cada
tipo específico de entidade, a Punga é predominantemente profana, e seus
cânticos e toadas servem principalmente para diversão dos brincantes. Mas Ferretti
(1995) afirma:
“O tambor de
crioula é manifestação festiva não se caracterizando pela ocorrência do transe,
mas na cultura popular onde uma manifestação nunca é totalmente profana, as
fronteiras entre sagrado e profano são estreitas, existem muitas vinculações do
tambor de crioula com catolicismo popular e com as religiões de origem africana
como tambor de mina e a umbanda.” (FERRETTI, 1995)
O Tambor de Crioula[2]
é praticado por inúmeros terreiros ao longo de todo o ano, sobretudo em
homenagem a São Benedito ou aos Pretos Velhos, no dia 13 de maio. Ao ser
praticado em um terreiro ou casa, o Tambor ganha outras conotações, uma vez que
as apresentações no Carnaval e São João são realizadas geralmente para o
público em geral, mas principalmente para turistas, fazendo com que a prática
de Tambor seja quase “comercial”. Já em terreiros, temos os brincantes à
vontade, com liberdade para entoar cânticos às diversas entidades do Candomblé
e da Umbanda.
Normalmente é comum encontrar grupos
de tambor filiados a alguma casa ou terreiro, tendo o pai ou mãe-de-santo como
fundador. No que diz respeito à performance, tem-se que o Tambor é dançado
apenas por mulheres em formação de roda, conta também com um grupo de percussão
formado por três tambores, desempenhando cada qual uma função bem específica: o
pequeno repica, o médio, também dito meião ou socador, mantém o ritmo enquanto
o grande ou roncador marca o momento da umbigada. Alusiva à fertilidade, a
umbigada ocorre quando duas dançarinas se encontram por um alegre choque de
ventres e representa um convite para que a protagonista seguinte ocupe o centro
da roda com seu solo de giros, evoluções e gracejos. Como de costume, os
tambores são escavados a fogo e têm os seus couros aquecidos e afinados diante
de uma fogueira. Sua composição não impõe um limite de brincantes, e qualquer
pessoa pode se sentir livre para “entrar na roda” e participar da apresentação.
Praticado em quase toda sua totalidade por negros, o tambor parece estar
conquistando seu espaço junto a outras camadas da população. Ferretti (1995)
descreve esse recente fenômeno:
“Atualmente estudantes e brancos da
classe média começam a participar a participar ativamente, dançando ou tocando
tambor de crioula. Trata-se, entretanto de manifestação de origem africana
típica dos negros do Maranhão.” (Ferretti, 1995)
Isso parece reforçar a difusão cada
vez maior do Tambor na sociedade. Porém, vale ressaltar que o interesse de
outras camadas sociais pela Punga é relacionado ao incentivo governamental. Com
o apoio financeiro das Secretarias de Cultura do Estado e Município, os grupos
têm se apresentado em arraiais, durante as festas juninas, e palcos no período
de carnaval, popularizando o acesso à dança. Mas, frisa-se o interesse
mercadológico do Estado por trás da popularização da Punga. Ao tornar o Tambor
um produto cultural, o Estado torna este também universal, pois graças à mídia,
na pós- modernidade, nada é tão local quanto mundial. Nesse sentido, a cultura
maranhense e a promoção do Tambor de Crioula tornam-se frutos de jogos de
poderes, que lhes determinam essas identidades.
Em meio à produção das cantigas e
toadas do Tambor de Crioula, objeto de estudo deste trabalho, vale ressaltar
primeiramente o conceito de língua de especialidade, que serve de base para
identificar a vertente lingüística que norteia este trabalho. Uma vez
codificada a variação lingüística que ocorre na escrita das toadas, torna-se
mais simples a transcrição do falar popular contido nas cantigas. Conceição
(2009) define:
“O conceito denominado por língua de
especialidade tem sido definido como um conjunto limitado de características de
uma determinada língua natural. Características particulares a determinados
contextos comunicativos e constitutivas de padrões de interação comunicativa
específicos (comunicação especializada) que não se podem limitar às unidades
lexicais atualizadas nos discursos técnicos e/ou científicos, isto é, os
termos, ainda que estes sejam considerados o elemento do sistema linguístico
que melhor caracteriza as línguas de especialidade.” (CONCEIÇÃO, 2009)
Assim, ao tomarmos as lexias das
cantigas e toadas do Tambor de Crioula enquanto especialidades de uma língua
maior, que é a portuguesa, podemos aferir o caráter de interação comunicacional
por trás da produção. Normalmente, as cantigas são dotadas de um forte caráter
pragmático, voltadas para eventos do dia-a-dia do brincante e têm como fonte de
inspiração diversas situações do cotidiano dos participantes: a vida na
periferia, o passado vivido no interior do estado, conselhos ou reprimendas de
uma entidade espiritual, fatos que ocorreram na vida do participante ou mesmo a
pobreza, entre outros. Porém, vale lembrar também algo bastante frequente entre
os compositores de toadas, que é a criação de cantigas de improviso. Criadas no
momento da apresentação, essas toadas podem se perpetuar ou serem esquecidas,
pois geralmente não há uma preocupação dos próprios participantes em documentar
tais cantigas. As cantigas que se pretende analisar serão retiradas do acervo em
cd e texto “O Calor do Tambor de Crioula do Maranhão dá o tom à Cultura
Popular”, em que três mestres têm suas cantigas gravadas e documentadas: Mestre
Chico, Mestre Leonardo e Mestre Felipe.

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