sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Etnografia no Mercado Central

Fiz um trabalho para a disciplina de Antropologia sobre a etnografia do Mercado Central de São Luís do Maranhão. Foi sugerido pelo professor Jarbas e o texto de apoio foi o text da antropóloga Mundicarmo Ferretti, De segunda a domingoetnografia de um mercado coberto mina, uma religião de origem africana. São Luís: Governo do Estado, 1985.




                             



Etnografia no Mercado Central
Juliana dos S. Nogueira, 2011


Esta abordagem visa analisar o Mercado Central de São Luís do Maranhão em suas diversas manifestações e significâncias. Tem em vista também compreender e interpretar um pouco do cotidiano de cada pessoa que tem de alguma forma sua vida marcada por esse comercio que há muito tempo deixou de ser um mero centro comercial e assumiu um papel importantíssimo para a manutenção da historia e cultura da cidade.
Ainda nesse subprojeto serão abordadas temáticas que perpassam um estudo sistemático relacionado ao Mercado Central, temas como a formação de relações sociais, problemas enfrentados para a sustentação dos deveres no local e a hierarquia do poder, quem é portador do poder e por que. Entre outros que julgo características marcantes, como a comercialização de artesanatos locais, ervas e medicamentos religiosos “para todos os males”.
O Mercado Novo, antigo Mercado Central – nome disseminado e atualmente o mais usado – teve sua denominação mudada por uma reforma que recebeu em 1939. É um dos mais antigos centros comerciais da cidade, onde se pode encontrar uma infinidade de mercadorias, que variam desde bola de gude – peteca – a roupas. Ele é responsável pelo sustento de mais de 2.500 pessoas e embora passando por condições sanitárias e existenciais precárias ainda porta muita peculiaridade que não só o distingui de qualquer outro como marcam e definem a cultura popular. 

O que é o Mercado Central?

O Mercado Central é um centro comercial, atualmente montado em um galpão entre a Rua de São João e a Avenida Magalhães de Almeida. Embora tenha sido construído em meados de 1864 ainda hoje sustenta um importante papel para a população ludovicense. Teve seu apogeu no inicio da década de 90 quando passou por sua segunda e mais importante reforma. Por ser de domínio da prefeitura, existem órgãos públicos como a COMAB (Companhia Maranhense de Abastecimento) e a CEASA – MA (Centrais de Abastecimento do Maranhão), responsáveis pela manutenção da ordem no local e por resolver assuntos relacionados aos direitos e deveres trabalhistas dos comerciantes.
Nos corredores e barracas dispersos pelo espaço que constitui o mercado, encontram-se uma variedade de coisas, podendo achar desde artigos ornamentais a utilitários, embora a mercadoria mais comercializada sejam os alimentos. Constituem o Mercado pessoas que trabalham lá ha anos e de lá sempre tiraram seu sustento e de sua família, vendedores, feirantes, sacoleiros, merendeiras, carregadores, ajudantes, comerciantes, vigilantes, entre outros trabalhadores.
O Mercado não tem um publico alvo visto que sua infinidade de mercadorias pode ser consumida por variados tipos de pessoas de quaisquer procedência, classe social, raça e credo. É comum ver turistas freqüentando o local em busca de algum artesanato peculiar da região ou ate mesmo para conhecer o local por já ser considerado um patrimônio cultural para a população.


Como funciona?

Os trabalhadores dão inicio as suas atividades comerciais por volta das 5 horas da manhã, onde começam a organizar suas barracas e prateleiras. Não existe nenhuma restrição para mercadorias, visto que se pode encontrar até produtos piratas como CDs, DVDs e outras tecnologias hitech. Os feirantes anteriormente são subdivididos pelo seu produto que estará à venda, exemplo são as verduras, utilitários, frutas, açougue, medicamentos, artesanatos entre outros. Existe algumas exceções no caso de um mesmo comerciante possuir mais de uma categoria de produto.
Geralmente o comercio não tem hora para encerar suas atividades, a lei é enquanto tiver clientes ou mercadorias continua aberto, mas é normal começarem a se recolher por volta das 19 horas que é quando a movimentação na Rua Grande diminui e as lojas começam a fechar as portas. Há dias com mais movimentação nas ruas que estendem suas atividades enquanto durar o estoque de mercadorias, são dias como vésperas de festas, onde as pessoas preferem esperar ate o ultimo momento para comprarem o que lhes é desejado.
O Mercado Central é aberto à população de segunda-feira a domingo, as pessoas entram, escolhe o que querem levar, pagam pela mercadoria – cujo preço geralmente é tabelo -, recebem o produto, e vão embora, podendo passar por outras barracas para comprar outros produtos. As pessoas não precisam necessariamente comprar algo sempre que vão lá, podem passar, olhar e sair. Geralmente acontece quando os produtos não estão “bons”.
Os corredores são estreitos, sem muita iluminação, possui um mau cheiro provocado por restos de comidas que estragam e ouvi-se um barulho quase ensurdecedor, causado pela grande quantidade de pessoas falando e oferecendo seus produtos ao mesmo tempo em uma tentativa incessante de atrair a atenção do cliente e fazer a propaganda de sua mercadoria. Visto por esse ângulo pode parecer assustador, mas o Mercado Central acaba por ser um lugar aconchegante onde as pessoas são na grande maioria das vezes carismáticas, com rostos amigáveis, sempre dispostas a agradar o cliente. O ambiente é adaptável visto que não se difere da grande maioria das feiras.


Raios-X do Mercado

·         Construído em 1864
·         Possui 450 estabelecimentos
·         Mantém direta e indiretamente mil trabalhadores em média, além de todas as pessoas envolvidas na logística do processo
·         Gera renda para quase 2.500 pessoas, incluindo flanelinhas e carregadores de sacolas
·         Cada feirante paga uma taxa diária que varia de R$ 0,70 a R$ 7,85, dependendo do tamanho do Box
·         A energia elétrica não é individualizada, e é paga de acordo com o número de congeladores existentes dentro do box, ou seja, R$ 15 por cada congelador
·         O Mercado Central é administrado por apenas um gerente.        

Fonte: Jornal Pequeno, Outubro de 2008 , página 90265 –

A formação das Redes Sociais

Assim como em muitos outros lugares a clientela do Mercado Central se dá por freguesias. Uma pessoa que tem o habito de comprar com um determinado feirante, sempre comprara com ele. Em troca dessa fidelidade, ele selecionara a mercadoria mais apresentável para o seu freguês e um preço “camarada”.
Geralmente um freguês sempre indica outra pessoa para comprar na determinada barraca. Como o Mercado Central carece de propagandas das mercadorias, o jeito é apelar pelas indicações, o famoso “boca a boca”. E sempre dá certo, assim a clientela só aumenta.
Quando o freguês é novo, o vendedor faz o possível para atrair sua atenção. Não é o suficiente os produtos estarem dispostos a mostra, ele faz questão de enfatizar que o dele é melhor e para comprovar que está certo oferece uma “provinha” para as pessoas experimentarem.  É comum ouvir expressões como “Hoje ta docinha!”; “Laranjas desse jeito você só encontra aqui!”. Depois de ter a atenção do cliente, o vendedor lança mão de outros artifícios, como a simpatia, a garantia de qualidade e ate mesmo a auto valorização para conquistar a confiança do cliente.
O cliente que fica indeciso em meio a tantas investidas pode perguntar para outras pessoas que freqüentam o local, onde devem comprar. Neste caso a resposta é quase automática: “Ah, eu acho melhor na barraquinha de “fulano”, sempre compro lá e nunca me arrependi!” Dessa forma se dá a manutenção da clientela. E à medida que se perguntam as pessoas, sempre darão respostas diferentes, respostas que mais satisfaçam os seus interesses. Um produto que é exceção, inclusive que quase alcança a unanimidade é a carne de sol de um vendedor muito antigo no Mercado. Para qualquer pessoa que pergunta, qual é a melhor carne de sol? Sempre se ouvirá, a carne de sol de “fulano ¹” ! E costumam dizer que é a melhor da cidade, ele garante “Minha carne de sol é um “dom” de

_________________________________________________________________________ ¹ Optei por não citar nomes sem a prévia autorização.

família, eu herdei do meu pai e passei para os meus filhos que passaram depois para os netos. Dizem que a minha é a melhor da cidade!”
As pessoas parecem sempre estar dispostas a ajudar e com muita simpatia puxam assunto sobre qualquer coisa. É muito difícil ver uma discussão entre os clientes. Porem é comum ver os feirantes discutindo e brigando por atenção.  Pude presenciar um desentendimento entre eles, o motivo era um balde que estava disposto na barraca do vizinho que se incomodou com a situação.  Existe certa rivalidade entre alguns e sempre se percebe o clima pesado. Os motivos dos desentendimentos sempre variam, mas parecem ser coisas banais que se maximizam levando em consideração a antipatia antiga entre eles.
Também existem os feirantes queridos por todos, são os chamados “camaradas”, “parceiros”, “compadre”.  A “política de boa vizinhança” é facilmente percebida neste caso, eles conversam entre si, riem, contam piadas, sempre com muito bom humor. Em uma situação corriqueira, um empresta mercadoria para o outro caso a dele já tenham acabado para que ele não perca o seu cliente.

A Hierarquia do Poder

Quando acontece algum imprevisto, ou os vendedores precisam resolver um problema que lhes incomodam á algum tempo, a quem recorrer? Uma das principais reclamações é que os órgãos responsáveis pelo Mercado Central não se importam com o bem-estar dos trabalhadores e só vão religiosamente buscar o dinheiro do aluguel e outros pagamentos afins, como água e luz.
É comum ver em cada lugar alguém com iniciativa que lidere e represente o grupo quando há alguma manifestação. Neste caso quem geralmente é o portador desse poder são as pessoas que trabalham a mais tempo no local. Eles sempre auxiliam os demais perante os órgãos responsáveis por eles. Possuem mais respeito de todos e sabem lhe dar com várias situações, tendo também o dom do improviso se necessário.
Quando há alguma reclamação os demais procuram o determinado vendedor que os representam e o comunica, ele posteriormente toma as medidas necessárias. Quando precisam entra em contato com algum “superior” para registrar algo, sempre se reúnem e entram em um consenso. O responsável por todos não possui nenhum cargo que o diferencia dos demais. Ele conquistou esse espaço de liderança por ser de confiança, respeito e sempre ser ouvido.
Eles funcionam como uma comunidade, onde existe uma ordem hierárquica que os distinguem. Os mais velhos não só possuem autoridade sobre os demais como também são portadores de mais sabedorias. Sempre tem conselhos para tudo, sabem lhe dar com diversas situações inusitadas e ainda contam historias de “causos populares”, lendas urbanas e coisas que já viram durante o tempo que ficaram lá. Dessa forma acabam por conseguir a atenção dos demais, inclusive dos consumidores que sempre se dispõe a ouvi-los.
Dentre as pessoas que partilham dos saberes populares, destacam-se também os vendedores de remédios naturais. Eles assumem o papel de um verdadeiro pai-de-santo, sempre com soluções e curas para os mais diversos problemas espirituais. Tem soluções para desde mau olhado a impotência sexual, as soluções esotéricas sempre vêem acompanhadas de muitas recomendações e garantias de satisfação.
Muito convincente também são os vendedores de garrafadas e lambedores, que prometem solucionar problemas que vão desde gripe a miomas, micoses na pele, dificuldade para engravidar e em alguns casos prometem ate curar alguns tipos de câncer, como úlceras. Tomando uma simples colher de sopa da garrafada ou do lambedor por dia, se o problema for muito grave, recomenda-se duas.

Principais Dificuldades

Dentre todas as dificuldades que enfrentam no Mercado Central, as que merecem destaque são principalmente, problemas relacionados a saneamento básico. Os consumidores reclamam do mau-cheiro, da grande quantidade de ratos e baratas que saem à noite para consumir as sobras de alimentos e transitam livremente pelas mercadorias estocadas em suas prateleiras.
Eles partilham também de falta de banheiros públicos no local, os que ainda restam estão em péssimas condições de uso. E atualmente, depois de mais de 15 anos sem reformas o Mercado passa por uma reforma que saiu do âmbito das promessas. É uma espécie de aterramento para drenagens na Avenida, que visa solucionar problemas de esgotos e de alagamentos. Quando chove fica praticamente intransitável, alaga tudo e geralmente os feirantes perdem muitas de suas mercadorias. No setor de peixes também existe um grande problema de condições de higiene por não possuir nenhum tipo de escoamento de água.
Enquanto a promessa de revitalização e padronização feita pela prefeitura em 2008, não saiu do papel, frustrando os comerciantes locais que á anos esperam por melhorias e ressaltam as condições desumanas de trabalho. A falta de iluminação publica no local também é um dos grandes problemas enfrentados por todos. Com o alto nível de criminalidade e esse desconforto relacionado à iluminação, o Mercado Central já foi palco para muitos crimes. Os ladrões de escondem na penúria e abordam turistas que freqüentam o local à noite e a população que vão aos teatros da redondeza.
Foram mencionadas também situações em que o local quando não está habitado é usado como refugio para pessoas se drogarem e casais desinibidos praticarem atos sexuais. Inclusive existem relatos de muitas camisinhas encontradas no local, principalmente em época de carnaval, que os blocos passam por perto facilitando a ação dos vândalos.

Conclusão

Para a elaboração da abordagem foram usadas teorias como a Clifford Geertz, sobre a interpretação cultural e a necessidade de uma descrição densa.  Observei também os significados e o significante de cada ação buscando dar sentido aos acontecimentos aqui descritos. A interpretação dos códigos preestabelecidos e a escrita com uma tentativa de se aproximar de uma critica literária também foram perspectivas apreendidas do autor, que me guiaram na produção deste texto.
A maneira como Lévi - Strauss definiu conceitos culturais também foram primordiais para compreender os sistemas e linguagens formados pelos trabalhadores estudados. A pesquisa etnográfica também foi baseada em algumas produções de Malinowisk,que serão  úteis não só para vida acadêmica mas também para produções literárias em âmbitos de pesquisas.
O Mercado Central é um dos mais tradicionais existente em São Luís, que resiste aos desgastes do tempo pela luta dos feirantes, que dali tiram tirar seu sustento e o mantém mesmo em condições mínimas de funcionamento. Passa por diversos problemas físicos, como a estrutura sucateada e a ação de vândalos percebidas por toda parte. Alem de pouca fiscalização sanitária, percebe-se cada vez mais a indignação por parte dos comerciantes que são obrigados a pagar impostos e alugueis cada vez mais caros mesmo sem perceberem um retorno da prefeitura.
Um dos mais antigos vendedores que esta no local a mais de 40 anos afirma que mesmo com todas essas dificuldades enfrentadas, o Mercado Central ainda continua sendo alem de sua fonte de renda uma representação comunitária de cultura e a prova de que força de vontade unida a qualidade de serviço e de atendimento, são ótimas estruturas capazes de vitalizar patrimônios esquecidos.


Referencias Bibliográficas

FERRETTI, Mundicarmo M. R. De segunda a domingo, etnografia de um mercado coberto; Mina, uma religião de origem africana. 2ª Ed. São Luís: SIOGE, 1977, 62 p.  Premio Concurso Plano Editorial – 1985 (1ª Ed. SIOGE, 1995).
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978 (Cap 1.: pp.13-41).
GEERTZ, Clifford. Testemunha Ocular: os filhos de Malinowski, Obras e Vidas: o antropólogo como autor, Rio de Janeiro:Editora UERJ, 2002, pp. 99-134.
LÉVI-STRAUSS, C., Tristes Trópicos, São Paulo, Companhia das Letras, 1996.








1 comentários:

  1. Oi estou seguindo, gostei muito do seu blog =)

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    Visita e se gostar, segue =)
    beijinhos =P

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