Etnografia no Mercado Central
Juliana dos S. Nogueira, 2011
Esta abordagem visa analisar o
Mercado Central de São Luís do Maranhão em suas diversas manifestações e
significâncias. Tem em vista também compreender e interpretar um pouco do
cotidiano de cada pessoa que tem de alguma forma sua vida marcada por esse
comercio que há muito tempo deixou de ser um mero centro comercial e assumiu um
papel importantíssimo para a manutenção da historia e cultura da cidade.
Ainda nesse subprojeto serão
abordadas temáticas que perpassam um estudo sistemático relacionado ao Mercado
Central, temas como a formação de relações sociais, problemas enfrentados para
a sustentação dos deveres no local e a hierarquia do poder, quem é portador do
poder e por que. Entre outros que julgo características marcantes, como a
comercialização de artesanatos locais, ervas e medicamentos religiosos “para
todos os males”.
O Mercado Novo, antigo Mercado
Central – nome disseminado e atualmente o mais usado – teve sua denominação
mudada por uma reforma que recebeu em 1939. É um dos mais antigos centros
comerciais da cidade, onde se pode encontrar uma infinidade de mercadorias, que
variam desde bola de gude – peteca – a roupas. Ele é responsável pelo sustento
de mais de 2.500 pessoas e embora passando por condições sanitárias e existenciais
precárias ainda porta muita peculiaridade que não só o distingui de qualquer
outro como marcam e definem a cultura popular.
O que é o Mercado Central?
O Mercado Central é um centro
comercial, atualmente montado em um galpão entre a Rua de São João e a Avenida
Magalhães de Almeida. Embora tenha sido construído em meados de 1864 ainda hoje
sustenta um importante papel para a população ludovicense. Teve seu apogeu no
inicio da década de 90 quando passou por sua segunda e mais importante reforma.
Por ser de domínio da prefeitura, existem órgãos públicos como a COMAB
(Companhia Maranhense de Abastecimento) e a CEASA – MA (Centrais de
Abastecimento do Maranhão), responsáveis pela manutenção da ordem no local e
por resolver assuntos relacionados aos direitos e deveres trabalhistas dos
comerciantes.
Nos corredores e barracas dispersos
pelo espaço que constitui o mercado, encontram-se uma variedade de coisas,
podendo achar desde artigos ornamentais a utilitários, embora a mercadoria mais
comercializada sejam os alimentos. Constituem o Mercado pessoas que trabalham
lá ha anos e de lá sempre tiraram seu sustento e de sua família, vendedores,
feirantes, sacoleiros, merendeiras, carregadores, ajudantes, comerciantes,
vigilantes, entre outros trabalhadores.
O Mercado não tem um publico alvo
visto que sua infinidade de mercadorias pode ser consumida por variados tipos
de pessoas de quaisquer procedência, classe social, raça e credo. É comum ver
turistas freqüentando o local em busca de algum artesanato peculiar da região
ou ate mesmo para conhecer o local por já ser considerado um patrimônio
cultural para a população.
Como funciona?
Os trabalhadores dão inicio as suas
atividades comerciais por volta das 5 horas da manhã, onde começam a organizar
suas barracas e prateleiras. Não existe nenhuma restrição para mercadorias,
visto que se pode encontrar até produtos piratas como CDs, DVDs e outras
tecnologias hitech. Os feirantes anteriormente
são subdivididos pelo seu produto que estará à venda, exemplo são as verduras,
utilitários, frutas, açougue, medicamentos, artesanatos entre outros. Existe
algumas exceções no caso de um mesmo comerciante possuir mais de uma categoria
de produto.
Geralmente o comercio não tem hora
para encerar suas atividades, a lei é enquanto tiver clientes ou mercadorias
continua aberto, mas é normal começarem a se recolher por volta das 19 horas
que é quando a movimentação na Rua Grande diminui e as lojas começam a fechar
as portas. Há dias com mais movimentação nas ruas que estendem suas atividades
enquanto durar o estoque de mercadorias, são dias como vésperas de festas, onde
as pessoas preferem esperar ate o ultimo momento para comprarem o que lhes é
desejado.
O Mercado Central é aberto à
população de segunda-feira a domingo, as pessoas entram, escolhe o que querem
levar, pagam pela mercadoria – cujo preço geralmente é tabelo -, recebem o
produto, e vão embora, podendo passar por outras barracas para comprar outros
produtos. As pessoas não precisam necessariamente comprar algo sempre que vão
lá, podem passar, olhar e sair. Geralmente acontece quando os produtos não
estão “bons”.
Os corredores são estreitos, sem muita
iluminação, possui um mau cheiro provocado por restos de comidas que estragam e
ouvi-se um barulho quase ensurdecedor, causado pela grande quantidade de
pessoas falando e oferecendo seus produtos ao mesmo tempo em uma tentativa
incessante de atrair a atenção do cliente e fazer a propaganda de sua
mercadoria. Visto por esse ângulo pode parecer assustador, mas o Mercado
Central acaba por ser um lugar aconchegante onde as pessoas são na grande
maioria das vezes carismáticas, com rostos amigáveis, sempre dispostas a
agradar o cliente. O ambiente é adaptável visto que não se difere da grande
maioria das feiras.
Raios-X do Mercado
·
Construído
em 1864
·
Possui
450 estabelecimentos
·
Mantém
direta e indiretamente mil trabalhadores em média, além de todas as pessoas
envolvidas na logística do processo
·
Gera
renda para quase 2.500 pessoas, incluindo flanelinhas e carregadores de sacolas
·
Cada
feirante paga uma taxa diária que varia de R$ 0,70 a R$ 7,85, dependendo do
tamanho do Box
·
A
energia elétrica não é individualizada, e é paga de acordo com o número de
congeladores existentes dentro do box, ou seja, R$ 15 por cada congelador
·
O
Mercado Central é administrado por apenas um gerente.
Fonte: Jornal Pequeno, Outubro de 2008 ,
página 90265 –
A formação
das Redes Sociais
Assim como
em muitos outros lugares a clientela do Mercado Central se dá por freguesias.
Uma pessoa que tem o habito de comprar com um determinado feirante, sempre
comprara com ele. Em troca dessa fidelidade, ele selecionara a mercadoria mais
apresentável para o seu freguês e um preço “camarada”.
Geralmente
um freguês sempre indica outra pessoa para comprar na determinada barraca. Como
o Mercado Central carece de propagandas das mercadorias, o jeito é apelar pelas
indicações, o famoso “boca a boca”. E sempre dá certo, assim a clientela só
aumenta.
Quando o
freguês é novo, o vendedor faz o possível para atrair sua atenção. Não é o
suficiente os produtos estarem dispostos a mostra, ele faz questão de enfatizar
que o dele é melhor e para comprovar que está certo oferece uma “provinha” para
as pessoas experimentarem. É comum ouvir
expressões como “Hoje ta docinha!”;
“Laranjas desse jeito você só encontra aqui!”. Depois de ter a atenção do cliente, o vendedor
lança mão de outros artifícios, como a simpatia, a garantia de qualidade e ate
mesmo a auto valorização para conquistar a confiança do cliente.
O cliente
que fica indeciso em meio a tantas investidas pode perguntar para outras
pessoas que freqüentam o local, onde devem comprar. Neste caso a resposta é
quase automática: “Ah, eu acho melhor na
barraquinha de “fulano”, sempre compro lá e nunca me arrependi!” Dessa
forma se dá a manutenção da clientela. E à medida que se perguntam as pessoas,
sempre darão respostas diferentes, respostas que mais satisfaçam os seus
interesses. Um produto que é exceção, inclusive que quase alcança a unanimidade
é a carne de sol de um vendedor muito antigo no Mercado. Para qualquer pessoa
que pergunta, qual é a melhor carne de sol? Sempre se ouvirá, a carne de sol de
“fulano ¹” ! E costumam dizer que é a melhor da cidade, ele garante “Minha carne de sol é um “dom” de
_________________________________________________________________________ ¹ Optei por
não citar nomes sem a prévia autorização.
família, eu herdei do meu pai e passei para os meus filhos que
passaram depois para os netos. Dizem que a minha é a melhor da cidade!”
As pessoas
parecem sempre estar dispostas a ajudar e com muita simpatia puxam assunto
sobre qualquer coisa. É muito difícil ver uma discussão entre os clientes.
Porem é comum ver os feirantes discutindo e brigando por atenção. Pude presenciar um desentendimento entre
eles, o motivo era um balde que estava disposto na barraca do vizinho que se
incomodou com a situação. Existe certa
rivalidade entre alguns e sempre se percebe o clima pesado. Os motivos dos
desentendimentos sempre variam, mas parecem ser coisas banais que se maximizam
levando em consideração a antipatia antiga entre eles.
Também
existem os feirantes queridos por todos, são os chamados “camaradas”, “parceiros”, “compadre”.
A “política de boa vizinhança” é facilmente percebida neste caso,
eles conversam entre si, riem, contam piadas, sempre com muito bom humor. Em
uma situação corriqueira, um empresta mercadoria para o outro caso a dele já
tenham acabado para que ele não perca o seu cliente.
A Hierarquia do Poder
Quando acontece algum imprevisto, ou os
vendedores precisam resolver um problema que lhes incomodam á algum tempo, a
quem recorrer? Uma das principais reclamações é que os órgãos responsáveis pelo
Mercado Central não se importam com o bem-estar dos trabalhadores e só vão
religiosamente buscar o dinheiro do aluguel e outros pagamentos afins, como
água e luz.
É comum ver em cada lugar alguém com
iniciativa que lidere e represente o grupo quando há alguma manifestação. Neste
caso quem geralmente é o portador desse poder são as pessoas que trabalham a
mais tempo no local. Eles sempre auxiliam os demais perante os órgãos
responsáveis por eles. Possuem mais respeito de todos e sabem lhe dar com
várias situações, tendo também o dom do improviso se necessário.
Quando há alguma reclamação os demais procuram
o determinado vendedor que os representam e o comunica, ele posteriormente toma
as medidas necessárias. Quando precisam entra em contato com algum “superior”
para registrar algo, sempre se reúnem e entram em um consenso. O responsável
por todos não possui nenhum cargo que o diferencia dos demais. Ele conquistou
esse espaço de liderança por ser de confiança, respeito e sempre ser ouvido.
Eles funcionam como uma comunidade, onde
existe uma ordem hierárquica que os distinguem. Os mais velhos não só possuem
autoridade sobre os demais como também são portadores de mais sabedorias.
Sempre tem conselhos para tudo, sabem lhe dar com diversas situações inusitadas
e ainda contam historias de “causos populares”, lendas urbanas e coisas que já
viram durante o tempo que ficaram lá. Dessa forma acabam por conseguir a
atenção dos demais, inclusive dos consumidores que sempre se dispõe a ouvi-los.
Dentre as pessoas que partilham dos saberes
populares, destacam-se também os vendedores de remédios naturais. Eles assumem
o papel de um verdadeiro pai-de-santo, sempre com soluções e curas para os mais
diversos problemas espirituais. Tem soluções para desde mau olhado a impotência
sexual, as soluções esotéricas sempre vêem acompanhadas de muitas recomendações
e garantias de satisfação.
Muito convincente também são os vendedores de
garrafadas e lambedores, que prometem solucionar problemas que vão desde gripe a
miomas, micoses na pele, dificuldade para engravidar e em alguns casos prometem
ate curar alguns tipos de câncer, como úlceras. Tomando uma simples colher de
sopa da garrafada ou do lambedor por dia, se o problema for muito grave,
recomenda-se duas.
Principais Dificuldades
Dentre todas as dificuldades que enfrentam no
Mercado Central, as que merecem destaque são principalmente, problemas
relacionados a saneamento básico. Os consumidores reclamam do mau-cheiro, da
grande quantidade de ratos e baratas que saem à noite para consumir as sobras
de alimentos e transitam livremente pelas mercadorias estocadas em suas
prateleiras.
Eles partilham também de falta de banheiros
públicos no local, os que ainda restam estão em péssimas condições de uso. E
atualmente, depois de mais de 15 anos sem reformas o Mercado passa por uma
reforma que saiu do âmbito das promessas. É uma espécie de aterramento para
drenagens na Avenida, que visa solucionar problemas de esgotos e de
alagamentos. Quando chove fica praticamente intransitável, alaga tudo e
geralmente os feirantes perdem muitas de suas mercadorias. No setor de peixes
também existe um grande problema de condições de higiene por não possuir nenhum
tipo de escoamento de água.
Enquanto a promessa de revitalização e
padronização feita pela prefeitura em 2008, não saiu do papel, frustrando os
comerciantes locais que á anos esperam por melhorias e ressaltam as condições
desumanas de trabalho. A falta de iluminação publica no local também é um dos
grandes problemas enfrentados por todos. Com o alto nível de criminalidade e
esse desconforto relacionado à iluminação, o Mercado Central já foi palco para
muitos crimes. Os ladrões de escondem na penúria e abordam turistas que
freqüentam o local à noite e a população que vão aos teatros da redondeza.
Foram mencionadas também situações em que o
local quando não está habitado é usado como refugio para pessoas se drogarem e
casais desinibidos praticarem atos sexuais. Inclusive existem relatos de muitas
camisinhas encontradas no local, principalmente em época de carnaval, que os
blocos passam por perto facilitando a ação dos vândalos.
Conclusão
Para a elaboração da abordagem foram usadas teorias
como a Clifford Geertz, sobre a interpretação cultural e a necessidade de uma
descrição densa. Observei também os
significados e o significante de cada ação buscando dar sentido aos
acontecimentos aqui descritos. A interpretação dos códigos preestabelecidos e a
escrita com uma tentativa de se aproximar de uma critica literária também foram
perspectivas apreendidas do autor, que me guiaram na produção deste texto.
A maneira como Lévi - Strauss definiu
conceitos culturais também foram primordiais para compreender os sistemas e
linguagens formados pelos trabalhadores estudados. A pesquisa etnográfica
também foi baseada em algumas produções de Malinowisk,que serão úteis não só para vida acadêmica mas também
para produções literárias em âmbitos de pesquisas.
O Mercado Central é um dos mais tradicionais
existente em São Luís, que resiste aos desgastes do tempo pela luta dos
feirantes, que dali tiram tirar seu sustento e o mantém mesmo em condições
mínimas de funcionamento. Passa por diversos problemas físicos, como a
estrutura sucateada e a ação de vândalos percebidas por toda parte. Alem de
pouca fiscalização sanitária, percebe-se cada vez mais a indignação por parte
dos comerciantes que são obrigados a pagar impostos e alugueis cada vez mais
caros mesmo sem perceberem um retorno da prefeitura.
Um dos mais antigos vendedores que esta no
local a mais de 40 anos afirma que mesmo com todas essas dificuldades
enfrentadas, o Mercado Central ainda continua sendo alem de sua fonte de renda
uma representação comunitária de cultura e a prova de que força de vontade
unida a qualidade de serviço e de atendimento, são ótimas estruturas capazes de
vitalizar patrimônios esquecidos.
Referencias Bibliográficas
FERRETTI, Mundicarmo M. R. De segunda a domingo, etnografia de um mercado coberto; Mina, uma
religião de origem africana. 2ª Ed. São Luís: SIOGE, 1977, 62
p. Premio Concurso Plano Editorial –
1985 (1ª Ed. SIOGE, 1995).
GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1978 (Cap
1.: pp.13-41).
GEERTZ, Clifford. “Testemunha Ocular: os filhos de Malinowski”, Obras e Vidas: o antropólogo como autor, Rio de
Janeiro:Editora UERJ, 2002, pp. 99-134.
LÉVI-STRAUSS, C., Tristes Trópicos, São Paulo, Companhia das Letras, 1996.
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beijinhos =P